A mão segura firmemente a maçaneta. O tempo para. O instante que ficará na memória.
Uma força invisível parece impedir qualquer movimento. Ficar é insuportável, sair é inevitável e adiar é em vão.
-Espera...eu...
A porta volta a se fechar. O final se estende alguns minutos mais, como no desfecho de um filme bem elaborado; os protagonistas não saem de cena com facilidade.
- Não diga nada.
As palavras são inúteis. Um grito preso na garganta nunca será dado. O desespero é evitado. Não pensar em nada, é a melhor forma de esconder o sofrimento.
É proibido pensar, é proibido falar do passado, do futuro. Não é recomendável falar do presente. O reino das palavras parece estar fechado temporariamente.
-Seja feliz.
A porta se abre e volta a fechar. Agora muito mais que uma porta os separa.
A maior de todas as forças foi preciso no simples ato de sair do automóvel. Ouve-se o som da partida. O passado começa sua viagem de volta ao ponto que parou, sem saber bem qual.
Pelas ruas da cidade. Ninguém sabe o que pode estar acontecendo. Parada, imóvel sob a luz baixa, incapaz de entrar na nova prisão que a aguarda. Os guardas da solidão esperam ansiosamente o novo hóspede da saudade. Não são todos que querem pagar o preço da liberdade.
Um sussurro:
- Chorar é para os fracos.
Lágrimas não descem, elas choram para dentro e lavam a alma.
Parece impossível existir a palavra felicidade.
Perdidos no templo da desilusão, o caminho de volta perde as pegadas.
Um sono, um sonho, uma noite, um dia ou uma semana não serão suficientes para apagar aquela imagem. O vazio. A herança das palavras nunca ditas. O som do medo. O assustador uivo do recomeço.
Demorará até que percebam o silencioso trabalho que o tempo executa com tanto esmero.
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28 maio 2010
22 junho 2009
Despedida
Um silêncio mortal se instaurou.
Ou talvez fosse apenas um efeito de sua mente. Tudo parecia absolutamente quieto, desesperador. Trabalhar assim era como passar um dia no inferno: 10h58, 10h59...o relógio parece estar estático, nunca girar. Finalmente 11h00. Ainda falta ao menos uma hora para chegar um horário aceitável de almoço. Que chatice!
Há alguns meses atrás sua vida era totalmente diferente. Acordava às sete da manhã animada, aliviada com o começo de um novo dia. Ambiente alegre, piadas, sorrisos. As coisas mudaram com o tempo. Hoje o barulho do celular anunciando o horário de levantar é como um chamado de guerra. Foi então que decidiu mudar. Era hora de procurar novos desafios, se os antigos já estavam saturados.
Mas isso não mudou o ritmo de seus dias. Tudo continuou absolutamente igual. De repente pensou: “será que será assim para sempre?” Não era possível. Todos os sonhos que tinha, o reconhecimento que esperava por fazer bem feito o trabalho que ama. Seria tudo ilusão?
Corre para o banheiro e chora. O cubículo branco que foi muitas vezes mais acolhedor que a maior sala do mundo. Ali sentia-se finalmente ela. Podia ser quem era: a chorona de sonhos infantis. Não os abandonaria. Lutaria por eles mesmo que todos fossem contra. Afinal, tinha sido assim até aquele momento. Estava sozinha, era uma realidade que tinha que aceitar. E aceitaria de braços abertos.
Mais uma vez o pequeno banheiro branco havia injetado uma dose de coragem na alma aflita que ali se encontrava. Como um ambiente poderia ser mais compreensivo que pessoas?
Estava decidido. Ergueria a cabeça até o último segundo. E ninguém mais passaria por cima dela. Mesmo que depois da batalha necessitasse de uma ida ao banheiro branco.
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