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04 outubro 2010

Noite

Algumas vezes somos obrigados a esquecer. E nisso somos sempre falhos. Mentirosos de nós mesmos. Incapazes de cumprir a massacrante promessa de desistir. Seja de um sonho, de uma pessoa, de um ideal.
De surpresa, quase sem perceber, percebemos que não dá mais. O fim. O ponto final. O anoitecer. Assassinamos, à queima roupa, nossos desejos. E assim ficamos: presos àquilo que antes nos libertara.
Até que um dia acordamos e percebemos que passou. Não queremos mais (ou queremos?). E surge, leve como um sopro, a ideia de voltar atrás. Ideia logo tragada pelo que mais tememos: a realidade.

03 janeiro 2010

Uma noite qualquer

Música. Música distante. Um som conhecido. "California Dreamin", remix de Royal Gigolos. Pessoas que riem. Despreocupadas. Imagina-se que dançam sem se importar com o horário, com as obrigações, com os vizinhos. Gargalhadas, gritos e mais gargalhadas. Uma tentativa de cantar em coro uma letra que na verdade não interessa.
Na cama. Sem sono. Mil pensamentos que vem e vão. Início de ano. Enquanto as pessoas festejam como se não houvesse amanhã, alguém pensa exatamente nele. A respiração falta um pouco. O quarto parece pequeno, sufocante. Medo de ser mais uma daquelas longas noites nas quais a filosofia vence o sono.
Uma voz: "Mãe, não consigo dormir". Outra reforça: "este som vai me matar". Ao descobrir que outros estão no mesmo barco, de repente o quarto parece mais cheio. Não somente ele, mas também o coração. Enche-se de algo. Sabe-se lá de quê. Uma alma um pouco menos solitária, um pouco mais tranquila.
E o sono chega de mansinho.
Mais música. Risadas. Sons. Cheiros. Clarões.
Um rojão que acorda. E outro. A cada despertar novas lembranças. Músicas que despertam um passado não tão distante.
Uma viagem a um momento. Indistinto. Um fone no ouvido, muitos sonhos na mente. Não foi há tanto tempo. Músicas dançadas no meio da sala, no quarto, em qualquer lugar. No transporte público apenas os pés mexiam, enquanto o som maltratava os tímpanos.
Hoje tudo parece mais proibido. Mais vergonhoso. Menos espontâneo.
A música, no entanto, mantém seu poder de relembrar, reviver. Resgatar na memória os doces pedaços dessa aventura que é viver.