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06 junho 2010

Pela metade

Meus pensamentos estão concentrados em você.
Não é culpa minha, não é culpa sua. Simplesmente é assim.
E para fatos concretos, explicações racionais são dispensáveis.

Minha mente se divide em dois compartimentos muito iguais, mas conceitualmente opostos.
Um com lembranças lícitas, preocupações reais, soluções urgentes.
Coisas de toda vida. Família, amigos. O mesmo de sempre.
A outra metade é como uma estrutura abalada.
Rouba toda a energia da metade estruturada.

Sinto certa imobilidade.
Sei que somos capazes de fazer tudo o que quisermos.
Mas se não sei o que quero, de que adianta ser capaz?

E enquanto uma faz só faz pensar em você, a outra fica paralisada.
É como ter em um corpo inteiro, uma mente pela metade.

20 outubro 2009

Decisão

Pensa, pensa, pensa.
Isto não lhe saía da cabeça.
Deitada na cama, observou o horário: oito da manhã. Ainda teria algumas horas de sono livres caso desistisse de tentar compreender o incompreensível. Ótimo, pensou, mais vale dormir para esquecer as mazelas da vida que ficar remoendo cada vírgula.
Mas a tentativa era tão inútil quanto tentar guardar um segredo; é possível não contá-lo, mas nunca esquecê-lo. Assim estava sua mente e seu coração. Ninguém sabia totalmente de suas inquietações, mas elas estavam presentes em cada minuto de seu dia.
Nem mesmo eu sei. Foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu, às dez, ao precisar acordar realmente. Seria maravilhoso se pudesse dormir até passar todo o sofrimento. Que ideia imbecil! Teria que estar acordada e alerta, para resolver pessoalmente todos os problemas.
Tentou pensar no assunto novamente, enquanto a água morna do banho molhava seu corpo nu. Mas uma nevoada de novos pensamentos invadiu sua mente, levando para longe os relativos àquele homem que ela havia amado tanto, origem de seu tormento.
Era preciso reconhecer, nas coisas do amor não se pensa. Classificar não adianta, colocar em pequenos blocos as lembranças é impossível, vigiar a imaginação é tarefa que não se mantém acima de dois minutos.
O que fazer, então?
O medo de deixar nas mãos do destino era grande. O tempo poderia levar para longe as boas lembranças do amor, deixando apenas os sentimentos ruins.
A decisão teria de ser tomada em breve, restava saber de qual forma chegaria.

06 outubro 2009

É outubro

É outubro.

Mas não há flores pelas ruas, não há sol pela janela. Há uma vontade louca de encontrar um espaço no mundo, apenas um pequeno furo e abrigar-se nele. Esperar que o primeiro raio de sol, prenúncio da felicidade, ilumine a esperança e clareie a verdade. Aguardar pelo momento do fim, anúncio de um novo começo. Momento aguardado. Ao contrário da morte, um caminho novo, que faça a vida pulsar e gritar a plenos pulmões.

Que a primavera finalmente aconteça. Que chegue o verdadeiro verão. Que a instabilidade da natureza não atinja o coração. Se ao menos pudesse tocar a lua e aproximar seu brilho da Terra, para afastar do mundo um pouco da escuridão. Mesmo que o brilho seja emprestado, qualquer alento é uma benção.

Que os sentimentos aflorem. Que a doce brisa da estação traga novamente o calor do amor. Que este verão revele segredos. Que cause a deliciosa sensação de amar e ser amado, de sentir a felicidade vazar por cada poro, de desejar ao mundo uma pequena parcela da alegria que embriaga o coração.

E que, ao passar, a estação deixe os amores quentes. Que a nostalgia seja apenas uma espera ansiosa pelo próximo verão. Que não seja mais a tristeza do arrependimento. A dor da ilusão.